Carta de amor:
Para ti, Mulher Sem Nome de Olhos Bonitos:
Reparei em ti em finais de Agosto ou finais de Setembro do ano, para mim duplamente inesquecível, de 2007. Digo duplamente inesquecível porque, foi no ano de 2007 que me é diagnosticado a Doença de Parkinson (07 de Janeiro de 2007). Foi algures no ano de 2007 que os nossos olhares se entrelaçaram, libertando em mim a labareda da paixão.
Nunca te dirigi uma palavra. Nunca perguntei o teu nome, onde vivias e com quem vivias. Com o decorrer do tempo soube, por que vi o modo carinhoso (como só uma mãe sabe fazer) acariciando e beijando o teu filho que mais tarde soube que se chamava Paulo. Então um lindo e amoroso menino, hoje um belo rapaz. É um rapaz sereno, educado…provavelmente o filho que toda a mãe gostaria ter.
Sei que és uma mãe extremosa, pois muitas vezes testemunhei o extremo cuidado como o protegias do frio, da chuva e da timidez.
Nunca to disse, mas sempre o pensei, sendo mãe extremosa porque não a companheira ideal para o resto das nossas vidas?
Nunca te dirigi palavra, por isso não sei o teu nome. O Senhor Parkinson não o permitiu. Deprimido, ansioso, com dificuldades (evidentes) em andar e com a alma sangrando de tanta dor. Era com enorme sacrifício e com algum prazer, que permanecia hirto junto de um quadradinho mágico de verde pintado observando-te. Ora de frente, ora de lado, ao perto ou ao longe.
De qualquer modo, tinha uma vida para além do Parkinson e da Mulher Sem Nome de Olhos Bonitos. Era necessário lutar contra a imobilidade a que estava sujeito e para tal era imperioso ter força de vontade e motivação. Só eu sei o quanto é difícil percorrer a pé pequenininhas, pequenas ou longas distâncias tendo apenas como companheiro o Senhor PARKINSON. Sim, tive o apoio da família, também dos poucos amigos que consegui fazer durante os vinte e nove anos que esta terra magnifica me acolheu.
Mas a tendência, mais tarde ou mais cedo, é desistir. Não desisti nem desistirei porque na minha mente estará presente a minha paixão pela Mulher Sem Nome de Olhos Bonitos.
Aproveito para, humildemente te pedir desculpa (Mulher Sem Nome de Olhos Bonitos) se em algum momento te sentiste molestada, desrespeitada ou ferida no teu orgulho, pois nunca foi minha intenção ofender-te.
Mulher Sem Nome de Olhos Bonitos: Li muito sobre o Parkinson. Tomei a decisão: seria, vil, cobarde e cometeria um pecado mortal imperdoável, tentar conquistar o teu coração. Não quero que daqui a alguns anos (muitos pretendo eu) veres-me definhar no final da minha vida. Tu, se ainda me amasses, serias um farrapo humano, pois não estarias emocionalmente preparada para aguentar tanta dor. Deus é meu amigo, estou convicto que me irá poupar a tanto sofrimento.
Mulher Sem Nome de Olhos Bonitos quero que saibas que esta decisão foi tomada em pleno equilíbrio emocional em 5 de Outubro de 2010.
Mulher Sem Nome de Olhos Bonitos, quero que saibas que continuas e continuarás a ser a minha paixão. Por ti e por mim, irei lutar contra o Parkinson todos os dias da minha vida de modo a morrer com a melhor qualidade de vida possível.
Com mil beijinhos me despeço:
Um doente com Parkinson
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